quinta-feira, 12 de março de 2009

Casa Própria

Existem várias moradoras dentro de mim e eu gostaria de apresentá-las para que compreendam um pouco como eu reajo quando uma delas sai para conversar com você. Elas não convivem bem umas com as outras, mas eu as obrigo a permanecerem juntas porque é vital para mim. Deixar minha casa vazia seria como me condenar à demolição.

Pela janela ao lado da porta principal, atrás da cortina, você não vê a Tímida, mas saiba que ela está sempre vendo você. Essa moradora está constantemente ensaiando no espelho do banheiro o que deve falar. Ela inveja a Simpática, dona de um sorriso fácil e apreciadora de festa no apê. Infelizmente, a Simpática é muito seletiva e só aparece para quem visita a casa muitas vezes e consegue despistar a Tímida.

Existe também a Indelicada, ela costuma ficar trancada no porão reclamando da quantidade de lembranças que eu acumulei por lá. Coleciona muitos adjetivos que iniciam com in, embora ela seja totalmente out. A moradora Engraçadinha não tinha muito sucesso nas suas investidas humorísticas e essa foi a sua última piadinha antes que ela se tornasse a Irônica, depois de ter tido uma briga séria com a Indelicada sobre seu jeito pastelão de ser.

A Maluca foi responsável pelas paredes terem tons de verde, azul e rosa. Ela está sempre mudando, nem que seja mudando somente a organização dos móveis da sala. Mudança engloba a palavra maluquice, em muitos casos. Estou tendo pensamentos compulsivos sobre ir à praia de nudismo? Culpem a Maluca. Estou querendo dançar thriller? Já sabem. Ela pode ser um indivíduo exótico, mas ninguém pode negar que ela sempre terá um santo remédio para combater o tédio.

Na cozinha sempre estará a Desastrada. Na verdade, não a queriam em canto nenhum. Tinham medo de que ela quebrasse os prêmios imaginários e os bons valores que trago comigo. A Impulsiva se apiedou da Desastrada porque sabia que de alguma forma os desastres eram conseqüência da sua mania de não pensar duas vezes. Acredito que cozinho mal por conta da Desastrada.

Tem sempre quem fica com as contas da casa para pagar. Moradora Responsável cumpria com dignidade este dever, até que um dia ela surtou. Decidiu que queria virar a Revoltada e que ia ganhar o mundo se mudando daquela pocilga. Pena. Ela descobriu que não dá pra me abandonar e esquecer as obrigações da vida, por isso, seu humor fica oscilando entre essas duas personalidades.

A Irônica, ex-Engraçadinha, é sempre a primeira a querer saber das minhas tragédias íntimas. Irônica também adora constatar como o mundo se torna um lugar melhor a cada dia. Ela sempre comenta como é bom morar aqui dentro e não lá fora, em outra casa. Depois que a Irônica surgiu, eu ouvi pela primeira vez da Otimista que não deveria acreditar em algo que os outros dizem. Foi um duro golpe perceber que a Otimista não era a Boba, mesmo ela tendo fé que um dia a casa passará por reformas e se tornará um castelo europeu visitado por um príncipe.

A Contemplativa está sempre caminhando pelo jardim, vendo desenhos em nuvens e se maravilhando com coisas que ninguém percebe. Algumas vezes ela se torna a Apaixonada e cobra que todas as outras saibam valorizar o que ela vê de belo no mundo. É por isso que algumas vezes o amor faz a casa cair literalmente. A Venenosa, que já foi expulsa de casa várias vezes e sempre volta entrando pela chaminé, queria que a Contemplativa se chamasse Desligada. Claro que nenhuma das moradoras concordou. Havia a Desastrada pra que? Não, Desastrada não precisava de uma irmã gêmea. Ninguém percebeu, mas a Contemplativa não sofria de falta de atenção, pelo contrário, estava atenta a tudo. Até demais para o meu gosto.

Neste momento, a Ingênua está me garantindo de que todas as moradoras foram descritas e que, segundo a Irônica falou, todos conseguem entender com clareza as alegrias e perigos de conhecer estas moradoras. Muitos estranhos batem na minha porta, mas boa parte vai embora antes mesmo que elas possam recebê-los. Alguns são de casarões mal assombrados e eu tenho medo de deixar que elas os atendam. Uns também chegam sem rumo, meio que por acaso, e acabam pedindo abrigo dentro de mim. Porém, pouquíssimos têm a chave da casa e transitam livremente por ela. E, definitivamente, ninguém mora aqui com exceção delas.

Agora você pode tocar a campainha, só tenha sorte com quem vai abrir a porta.

(Foi só um passatempo. Sem desenho hoje.)

3 comentários:

Daniel Careca disse...

Acho que sou uma das poucas pessoas que são bem recebidas ^^
Sei lá, acho que gosto de todas as moradoras. Até as pessoas que não são muito sociáveis, eu procuro entender e aprender a lidar com elas. É algo mágico que permite isso dentro de mim.

Foi um ótimo texto mi ^^ Continue escrevendo assim e nunca desista dos seus sonhos (Será que falei isso pra Mi Sonhadora?)

=****

Mirelly Monteiro disse...

:)
eu tb tenho várias moradoras!!!
vc me fez refletir.
gostei do post

Renilson disse...

- belo texto..

Também refleti...
belo post!

http://papos-teen.blogspot.com/